sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

METABOLISMO DE PROTEÍNAS

A IMPORTÂNCIA E O PORQUÊ DE INGERIR PROTEÍNAS E AMINOÁCIDOS APÓS O TREINAMENTO DE FORÇA (MUSCULAÇÃO)




Na antiga mitologia grega, o gladiador Milo de Croton era conhecido pela sua força descomunal, fruto do seu árduo trabalho de treinamento que consistia em levantar diariamente nas suas costas um bezerro em fase de crescimento (treinamento de força progressivo). Diz a lenda que para recuperar seu desgaste físico o mesmo ingeria em um único dia uma refeição contendo 20 Kg de carne e 9 litros de vinho. A carne é um alimento rico em proteínas, e lendas à parte, a sociedade atual que preza uma boa saúde sabe da importância das proteínas na dieta.
Voltando ao passado, as proteínas foram descobertas em estudos realizados com ovos de aves, aonde os pesquisadores observaram que o aquecimento do ovo dava origem a substâncias chamadas de albuminas. Para cada proteína existe um gene que codifica uma sequência específica de aminoácidos. Além disso participam da catálise, motilidade, regulação, armazenamento, defesa e construção celulares. Uma vez que não é objetivo deste texto discutir a classificação das proteínas, sua estrutura e propriedades físicas e outras particularidades, estes não serão abordados em detalhes. 
As proteínas são obtidas por meio do consumo de carnes vermelhas e brancas, ovos, leites. Os aminoácidos essenciais como a leucina também necessitam serem obtidos pela dieta. Existem outras maneiras de obter quantidades suficientes de aminoácidos quando a comida do dia-a-dia não fornece a recomendação mínima, que é por meio da suplementação. No Brasil o primeiro suplemento foi o Proten, lançado em 1986. Sua formulação continha caseinato de cálcio e albumina de ovo, duas nobres proteinas. A partir de então foram criados outros tipos de suplementos como Amino Power Plus, o primeiro hidrolisado, depois vieram a creatina, a glutamina e o whey.
Os praticantes assíduos da musculação sabem da necessidade de ingerir proteínas e/ou aminoácidos após a sessão de treinamento. Mas por qual motivo? Qual a importância destes macronutrientes? 
Vamos relembrar de alguns conceitos bioquímicos, principalmente do metabolismo proteico. O músculo esquelético é um dos tecidos que mais necessita de proteínas, uma vez que indivíduos desnutridos com dieta hipoproteica apresentam perda de peso, atrofia muscular e podem desenvolver um quadro denominado de kwashiokor.
Os mecanismos que ativam a síntese protéica ainda estão sendo estudados mas envolvem a ativação do alvo mamífero de rapamicina (mTORC1). Ambos aminoácidos e exercício de força estimulam a ativação do mTORC1. Alguns transportadores de leucina incluindo LAT1 que pode ativar a mTORC1 são alguns dos mecanismos envolvidos. Estudos com camundongos demonstram que a falta de LAT1 em músculo diminui a atividade do mTORC1 em resposta ao treinamento de força. 
Em indivíduos moderadamente ativos as proteínas do músculo apresentam uma taxa de turnover de 1.2 % ao dia, isto significa que as proteínas musculares sofrem constante processo de degradação (perda) e síntese (ganho). No estado de jejum a degradação protéica excede a síntese levando a um estado catabólico (que pode resultar em longo prazo comprometimento da manutenção da massa muscular), enquanto que no estado alimentado a síntese prevalece sobre a degradação, resultando em longo prazo na manutenção da massa muscular. Após uma única sessão de treinamento de força (musculação) ocorre um aumento tanto da síntese (em uma maior magnitude) assim como da degradação (de menor magnitude) ou nenhuma alteração da degradação, favorecendo o balanço líquido positivo (que é como uma conta: proteínas sintetizadas - proteínas degradadas), mais proteínas sintetizadas menos proteínas degradadas resulta em balanço positivo, enquanto que mais proteínas degradadas menos baixas proteínas sintetizadas resulta em balanço negativo. Esse aumento dura de 24 até 48 horas. Assim, se o indivíduo estiver alimentado uma única sessão de treinamento de força irá aumentar a resposta anabólica do músculo (e se tiver reposição após o treino).
É importante frisar que uma única sessão de treinamento de força a massa muscular não irá aumentar repentinamente, o que acontece neste momento é a infiltração e acúmulo de metabólitos para dentro do músculo fazendo ele aparentar inchado. O que irá determinar sua hipertrofia é o acumulado das sessões que com frequência irá aumentar sua massa muscular se houver este balanço positivo de proteínas. 
Após o término do exercício de força (vale lembrar que não é significante suplementar com proteína depois de exercícios de longa duração), o músculo encontrará em estado de degradação quanto mais tardar o tempo. Assim, é essencial ingerir proteínas no máximo até 24 horas, de preferência 2 horas após o término do treino, pois os estudos demonstram maior síntese proteica até este período. Já a quantidade de proteínas vai depender do condicionamento físico do indivíduo, da faixa etária e do peso.
O Instituto de Medicina recomenda para indivíduos sedentários 0.8 g por kg de peso ao dia. No entanto, quando se fala em atletas de elite e indivíduos que realizam exercícios intensos o Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM) recomenda a ingestão entre 1.2 a 1.7 g por kg por dia. Assim, um atleta com 80 quilos precisaria ingerir cerca de 136 gramas de proteína ao dia. Por exemplo, um estudo demonstrou que a ingestão de proteína de 0.8 g por kg de peso ao dia recomendado pelo Instituto de Medicina teve uma menor síntese de proteína corporal total quando comparado com uma ingestão de 1.4 a 2.4 g por kg ao dia. Por outro lado, quando a ingestão aumenta a partir de 2.4 houve oxidação de aminoácidos. Isso demonstra que ao contrário de que muitos imaginam que aumentando a quantidade de proteínas a valores acima de 2.4 gramas por kg ao dia,  não irá oferecer vantagens para aumentar a massa muscular.
Em repouso 10 gramas de proteínas são suficientes, porém o mais importante é ingerir uma boa quantidade de proteínas após o exercício (como dito anteriormente até 2 horas após o exercício, no mais tardar 24 horas), pois a sensibilidade de aminoácidos em resposta ao nutriente para a síntese estará aumentada. A ingestão de 20 gramas de proteína de ovo mais 8 gramas de aminoácidos essenciais como a leucina aumenta a síntese proteica, e como discutido anteriormente aumentando a quantidade acima destes 20 gramas (ex: 40 g) parece não fazer efeito algum. No entanto vale ressaltar que para idosos uma maior quantidade de proteínas após o treinamento é preferível devido a maior resistência anabólica (capacidade de captar os aminoácidos essenciais como a leucina). Também são recomendados ingerir 20 a 25 gramas de proteínas de 5 a 5 horas,  e a noite antes de dormir cerca de 20 a 40 gramas para manter a massa muscular. E quanto a ingerir proteínas durante o treinamento? Faz sentido? Durante o exercício a síntese proteica é inibida (menor sensibilidade aos aminoácidos), demonstrando o porque de ingerir proteínas antes ou depois de preferência, e repousar o músculo após o exercício, pois é durante o descanso que as proteínas são reconstruídas. Proteínas de rápida absorção como o Whey são os mais recomendados após o exercício. A caseína hidrolisada também parece ser superior a caseína isonitrogenada, devido a mais rápida absorção. Assim, não só a velocidade de absorção, mas o tipo de aminoácido interfere na síntese proteica, o que leva a leucina ao posto de aminoácido mais potente quando entra a questão anabolismo. Apesar de teoricamente a ingestão de carboidratos aumentar a insulinemia e a captação de aminoácidos para dentro da célula, nenhum estudo demonstrou que a ingestão de carboidratos mais aminoácidos promove maior síntese protéica. Portanto, o consumo de proteína na dieta pode complementar o treinamento intenso e promover adaptações importantes como o aumento da massa muscular. 

REFERÊNCIAS:

AGUIRRE, N.; VAN LOON, L.J.C; BAAR, K. The Role of Amino Acids in Skeletal Muscle Adaptation to Exercise. Nestlé Nutrition Institutional Workshop Series, v. 76, p. 85-102, 2013.

ATHERTON, P.J.; SMITH, K. Muscle protein synthesis in response to nutrition and exercise. Journal of Physiology, v. 590, n. 5, p. 1049-1057, 2012.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

 SUPLEMENTAÇÃO COM ADENOSINA-5´-TRIFOSFATO (ATP)

EFEITOS SOBRE O DESEMPENHO ATLÉTICO, HIPERTROFIA MUSCULAR E RECUPERAÇÃO NO TREINAMENTO DE FORÇA


O QUE É ATP? 

É uma fonte de energia para realização do trabalho biológico (contração muscular e outras atividades orgânicas), mediante da hidrólise de ATP, ou a quebra entre o ADP (adenosina difosfato) com Pi (fosfato inorgânico). Esta quebra promove liberação de energia armazenada neste composto. A utilização e a consequente depleção dessa fonte energética requerem a participação de processos químicos que resultem na produção de energia necessária para que a ligação entre ADP e Pi seja refeita.  Para geração de energia na contração muscular ocorre a quebra de ATP em ADP + Pi . Para a ressíntese de ATP três formas químicas ocorrem: 
1) Durante exercícios intensos e pouco duradouros (2 segundos), a fosfocreatina é degradada (por enzimas) em creatina e fosfato, que são transferidos para ADP para formar novamente ATP.
2) A glicose-6-fosfato que vem do glicogênio por meio da glicólise anaeróbia converte-se em lactato e produz ATP.
3) Produtos do metabolismo da glicose, lipidios e alcool podem entrar no ciclo do ácido tricarboxílico (ciclo de Krebs) nas mitocôndrias, e são oxidados em água e dióxido de carbono. O processo de fosforilação oxidativa gera energia para formar ATP.


SUPLEMENTAÇÃO: QUEM PRECISA?

A suplementação é qualquer produto que contenha vitaminas, minerais, aminoácidos, ervas, concentrados, metabólitos, constituintes, extratos ou a combinação destes nutrientes. Os suplementos são desenvolvidos em duas formas: ergogênicos (indicados para aumentar possivelmente o desempenho), e repositores (indicados para repor os nutrientes perdidos por uma alimentação inadequada). A suplementação deve ter acompanhamento de um especialista em nutrição esportiva e deve ser individualizada de acordo com o estilo de vida (necessidade ou não de repor os nutrientes, intensidade e volume do treino, condição física do indivíduo, nível de estresse e sono entre outros). Muitas vezes os indivíduos aumentam a dose de alguns suplementos o que pode levar a possíveis efeitos colaterais assim como inutilização do produto pelo corpo, não aumento o desempenho. Entre os suplementos os mais utilizados são os energéticos, protéicos, compensadores, repositores e aminoácidos. 


SUPLEMENTAÇÃO COM ATP: O QUE SE SABE E O QUE NÃO SE SABE

O ATP produz vasodilatação, devido ao aumento da excitabilidade celular e aumento da permeabilidade ao cálcio. Se sabe que a meia-vida do ATP infundida é cerca de menos de 1 segundo. O ATP é rapidamente capturada e armazenada nos eritrócitos (células vermelhas do sangue). Quando o oxigênio é baixo nos músculos exercitados, os eritrócitos se deformam e liberam ATP. O resultado é a vasodilatação e o maior fluxo de sangue na musculatura em contração, favorecendo assim a oferta de nutrientes e oxigênio. A ingestão de ATP parece promover respostas ergogênicas sem aumentar a concentração plasmática de ATP. Um estudo demonstrou que a ingestão de 225 mg de ATP por dia durante 15 dias aumentou o volume total (séries x repetições x cargas) e repetição máxima. Outro grupo observou que a ingestão de 400 mg por dia de ATP aumentou o pico de torque mínimo nas duas séries finais de um teste em dinamômetro. Os resultados em conjunto sugerem que a suplementação de ATP deve reduzir a fadiga muscular e aumentar a geração de força em atividades intensas e intermitentes. 


QUAL A NOVIDADE DESTE ESTUDO? 

Até o momento nenhum estudo tinha examinado os efeitos crônicos em humanos quanto à composição corporal e indicadores de desempenho quando combinados ao treinamento de força periodizado. 

QUAL O OBJETIVO DO ESTUDO?

Verificar se a suplementação de ATP pode aumentar a potência, a força e a massa muscular durante 12 semanas de tratamento e o segundo objetivo é avaliar a segurança do suplementos por meio de avaliações hematológicas e bioquímicas. 


COMO FOI FEITO O ESTUDO?

O estudo foi randomizado (aleatório), duplo-cego (nem os participantes sabiam da ingestão nem os pesquisadores) e controlado por placebo. Foi dividido em três fases: a primeira fase consistiu em treinamento de força periodizado não linear (também chamado de ondulatório que não segue o mesma intensidade ao longo do treino) 3 x por semana. A segunda fase consistiu
 em uma fase de ciclo de overreaching (mais pesado) durante as semanas 9 e 10. A terceira fase consistiu em recuperação durante as semanas 11 e 12. A massa muscular e a composição corporal foram mensuradas no estado basal e nas semanas 4, 8 e 12. Massa muscular, salto vertical, creatina quinase, potência pico no teste de Wingate, proteína C reativa, testosterona foram mensuradas nas semanas 4, 8, 9, 10 e 12. A dose de ATP foi de 400 mg por dia. 


O QUE PODEMOS CONCLUIR DESTE ESTUDO? 

A suplementação de ATP foi eficaz em promover efeitos ergogênicos, uma vez que os indivíduos suplementados apresentaram maiores ganhos de massa muscular, força e potência. Apesar de a suplementação de ATP ter melhorado o desempenho os mecanismos envolvidos necessitam ser melhor investigados futuramente. Além disso, um maior número amostral (número de sujeitos pesquisados) necessita ser utilizado, além de uma população com diferentes condicionamentos (na pesquisa utilizou-se de sujeitos altamente treinados). Portanto, a suplementação com esta "moeda" energética que é o ATP parece fornecer adaptações favoráveis ao desempenho em nível funcional e morfológico durante exercícios intensos. 

Referência: Wilson, J.M et al. Effects of oral adenosine-5-' triphosphate supplementation on athletic performance, skeletal muscle hypertrophy and recovery in resistance-trained men. Nutrition and Metabolism, 2013.