sexta-feira, 27 de junho de 2014

SUPLEMENTAÇÃO PERSONALIZADA PARA CADA OBJETIVO



     É perceptível notar a quantidade de pessoas que se auto-suplementam, seja nas academias, no esporte de alto desempenho e na estética (para perda de peso, aumento da massa muscular). Ao mesmo tempo, inconscientemente ou até mesmo sabendo disso uma certa dúvida fica na cabeça do usuário, a respeito de qual suplemento utilizar, qual a quantidade correta e o momento ideal. Muitos buscam como fonte de informação a internet, revistas e "dicas" de amigos.

       No entanto, esta atitude não seria a mais adequada e plausível, uma vez que muitas informações ou dicas se respaldam no senso comum, sem base científica nenhuma. Isto pode acarretar em riscos para a saúde ou até mesmo um gasto desnecessário em cima de um produto que nenhum efeito fará o organismo se ingerido inadequadamente.  

      Assim, antes de utilizar qualquer produto, fazer a seguinte reflexão é pertinente: por que vou utilizar este suplemento? Para que objetivo? Vale lembrar, que alguns suplementos exibem maior efeito ergogênico (aumento do desempenho) para alguns indivíduos enquanto outros não fazem absolutamente nada. Para nada adianta se um indivíduo que objetiva aumento da massa muscular, ser suplementado com Cafeína ou L-Carnitina, pois suas ações não afetam a síntese proteica de maneira significativa. Da mesma forma, um sedentário que está iniciando um treinamento de força não necessitará de suplementação de carboidratos em grandes quantidades quando comparado a um atleta. Os suplementos podem funcionar, mas é preciso disciplina com o objetivo proposto, um treino respeitando a carga e sua frequência também é essencial. Um suplemento isolado não faz milagre ao corpo.

        Indivíduos que se exercitam em um nível elevado como os maratonistas necessitam de recompor seu combustível (glicogênio muscular) e restaurar as pequenas microlesões causadas pelo exercício. Normalmente este grupo necessita de carboidratos antes, durante e após o exercício. Os aminoácidos geralmente não são utilizados mas alguns estudos mostram que podem inibir o dano muscular e a proteólise causada pelo treino intenso. As gorduras podem ser desconfortáveis para o trato gastrointestinal. Da mesma forma, fisiculturistas precisam de promover um ambiente anabólico pós treino, e o mais ideal é o consumo de aminoácidos essenciais como o whey, que contém leucina. A creatina é utilizada como forma de complemento ao treinamento de força. O HMB também tem demonstrado resultados interessantes. Estes indivíduos que treinam em um nível elevado muitas vezes não conseguem recompor os nutrientes perdidos através de uma alimentação comum. Assim, optam pela suplementação. 


     Quais suplementos devem ser inicialmente utilizados? Depende. No treinamento de força o BCAA é interessante pois pode estimular a hipertrofia com uma extraordinária eficiência calórica, ou seja pode aumentar a massa muscular e promover uma definição ao corpo. A creatina vai auxiliar no aumento da massa muscular, pois ela atua renovando o sistema creatina fosfato, a principal energia para contrações musculares intensas. Isto significa que o indivíduo poderá aumentar a força pela suplementação de creatina, e treinando mais forte mais estímulo será fornecido ao músculo. Para um indivíduo que está iniciando na academia o HMB poderia ser interessante pois ele auxilia na recuperação aos danos musculares. Lembre-se que para hipertrofiar micro-lesões são importantes ao longo do processo. 

     É necessário atentar para as empresas que fornecem os suplementos. Nem sempre a quantidade indicada no rótulo é precisa. Por exemplo,  um suplemento pode indicar 25 gramas de proteína de alta qualidade, mas conter apenas 18 gramas de proteína e nem sempre de alta qualidade como indicada. O importante é informar sobre a empresa, se possui boa reputação no mercado, desenvolve suplementos de alta qualidade, e mais importante, se desenvolve pesquisas científicas no meio. Testar os próprios suplementos que produzem é o ideal.

         Antes de tomar qualquer suplemento o ideal seria realizar o treinamento físico primeiro, fazer um tipo de dever de casa. Qual o objetivo que está procurando: eliminação de peso, perda de gordura corporal, aumento da composição corporal, aumento da massa muscular, melhora e maximização do rendimento esportivo, saúde, estética. Evite tomar se você pensar que só porque está na moda, porque todo mundo toma, isto é dinheiro jogado fora. Procure sempre um profissional gabaritado e atentado com os novos conhecimentos da área, atualizado. De preferência que seja da área da nutrição. 

        Portanto, antes de condenar a suplementação ou achar que se trata de um elixir mágico instantâneo, abasteça sua mente de informações comprovadas pela ciência. Evite o modismo, e sempre busque utilizar o que mais se adéqua ao seu organismo e os objetivos a longo prazo. Não só o exercício deve ser personalizado, mas a suplementação deve entrar como estratégia coadjuvante de grande importância. 


terça-feira, 3 de junho de 2014

SISTEMA IMUNE, EXERCÍCIO FÍSICO E ESPORTE

EFEITO ANTI-INFLAMATÓRIO DO EXERCÍCIO FÍSICO


     Um amplo corpo de investigação descreve que a inapropriada ativação de componentes do sistema imune e indução de inflamação local em células e tecidos específicos engatilha o desenvolvimento de doenças crônico-metabólicas (diabetes, hipertensão, dislipidemia, obesidade).  Na obesidade, por exemplo o perfil imunológico celular do tecido adiposo apresenta substancialmente alterado de forma que macrófagos pró-inflamatórios (monócitos diferenciados em tecido), neutrófilos (primeira linha de defesa do processo inflamatório), linfócitos CD8+ estão aumentados (destruição de células infectadas ou tumores) (processo inflamatório sub-clínico de baixo grau), enquanto que eosinófilos (controla mecanismos envolvidos na alergia e asma) e células T regulatórias apresentam diminuídas. Tal processo pode iniciar o desenvolvimento de resistência à insulina (falha das células em responder apropriadamente à ações do hormônio insulina), levando ao diabetes. Nas doenças cardiovasculares, células imunes acumulam na vasculatura arterial contribuindo para a placa de ateroma. O exercício físico exibe potente e amplo efeito sobre o sistema imune, principalmente pelo seu efeito anti-inflamatório. O exercício físico, realizado principalmente em uma intensidade moderada e feita de forma regular é capaz de proteger o sistema e exercer benefícios fisiológicos. No entanto, quando o exercício é realizado na forma intensa e em casos extremos como na maratona ou Triatlon Ironman, pode ocorrer aumentos da produção de mediadores pró-inflamatórios (células e moléculas imunes que predizem inflamação), como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa), Interleucina 1beta (IL-1beta) e proteína C reativa. Tais respostas podem ser observados na lesão muscular e endotoxemia (infecção no sangue pela presença de toxinas no sangue). No entanto, se o exercício físico for bem planejado e controlado uma atividade anti-inflamatória prevalece, sendo observados aumentos na IL-10, IL-6 e IL-1. Diversos estudos com camundongos submetidos à dieta hipercalórica ou hiperlipídica (alto teor de gordura) demonstram que o exercício físico crônico (treinamento) diminui a gordura corporal associado à diminuição de citocinas (moléculas sinalizadoras importantes para a regulação do sistema imune). Além disso, o exercício físico associado à dieta pode diminuir os macrófagos do tecido adiposo. É sabido que a ingestão excessiva de gordura ou açúcar leva ao aumento de glicose no fígado e hiperglicemia e acúmulo de gordura no fígado um processo chamado de esteatose hepática não alcoólica. O aumento da inflamação no fígado é uma das características do fígado gorduroso, e tem sido implicado no desenvolvimento do carcinoma (câncer) hepatocelular induzido pela obesidade e resistência à insulina. Novamente, diversos estudos com humanos têm demonstrado que o treinamento físico como a caminhada ativa e frequente (5 dias por semana/ de 30 a 60 minutos) ou ciclismo (3 dias por semana por 45 minutos por 4 semanas reduz a esteatohepatite. Em modelos camundongos de esteatose hepática o treinamento físico reduz a inflamação do fígado pela redução da inflamação da expressão de TNF-alfa.

EFEITO PRÓ-INFLAMATÓRIO DO EXERCÍCIO

     Já em outro cenário temos que o exercício extremamente intenso pode predispor o organismo a maiores riscos de infecções oportunistas, como o do trato respiratório superior (pneumonia, tuberculose, enfisema pulmonar). Cerca de 33% dos maratonistas que finalizaram a corrida  adquiriram infecção do trato respiratório superior nas primeiras duas semanas. Após exercício extenuante, células matadoras naturais (natural killer) aumentam repentinamente e decaem 30 minutos após o exercício, enquanto que o exercício moderado induz aumento destas células análogas à célula citotóxicas. Portanto o acompanhamento de um profissional qualificado é importante para controlar a carga de treinamento (intensidade x volume). Entender a duração ideal, o tipo de exercício físico a ser realizado e a intensidade e frequência pode influenciar o estado imune. 

REFERÊNCIAS

LANCASTER, G.I.; FEBBRAIO, M.A. The immunomodulating role of exercise in metabolic disease. Trends in Immunology, v. 35, n. 6, p. 262-269, 2014.

AHMADINEJAD, Z. et al. Common Sports related infections: a review on clinical pictures, management and time to return to sports. Asian Journal of Sports Medicine, v. 5, n. 1, p.1-9, 2014.


Algumas sugestões: 


- Alimentar adequadamente e realizar exercícios físicos regularmente pode prevenir a instalação de um processo inflamatório de baixo grau e consequentemente o aparecimento de doenças crônico-metabólicas. 

- Pessoas devem evitar treinamento intenso prolongado.

- Evitar perda de peso severa.

- Evitar exposição a pessoas com infecções.

- Evitar respirar somente pela boca na realização do exercício. Respirar pela boca pode aumentar o resfriamento e secamento da mucosa do trato respiratório. Isto leva a diminuição das células ciliares e aumento da viscosidade da mucosa, comprometendo a filtração de microorganismos do trato respiratório superior. 

- Atletas que apresentam febre e taquicardia decorrente da infecção devem permanecer em repouso completo até a recuperação.