terça-feira, 3 de junho de 2014

SISTEMA IMUNE, EXERCÍCIO FÍSICO E ESPORTE

EFEITO ANTI-INFLAMATÓRIO DO EXERCÍCIO FÍSICO


     Um amplo corpo de investigação descreve que a inapropriada ativação de componentes do sistema imune e indução de inflamação local em células e tecidos específicos engatilha o desenvolvimento de doenças crônico-metabólicas (diabetes, hipertensão, dislipidemia, obesidade).  Na obesidade, por exemplo o perfil imunológico celular do tecido adiposo apresenta substancialmente alterado de forma que macrófagos pró-inflamatórios (monócitos diferenciados em tecido), neutrófilos (primeira linha de defesa do processo inflamatório), linfócitos CD8+ estão aumentados (destruição de células infectadas ou tumores) (processo inflamatório sub-clínico de baixo grau), enquanto que eosinófilos (controla mecanismos envolvidos na alergia e asma) e células T regulatórias apresentam diminuídas. Tal processo pode iniciar o desenvolvimento de resistência à insulina (falha das células em responder apropriadamente à ações do hormônio insulina), levando ao diabetes. Nas doenças cardiovasculares, células imunes acumulam na vasculatura arterial contribuindo para a placa de ateroma. O exercício físico exibe potente e amplo efeito sobre o sistema imune, principalmente pelo seu efeito anti-inflamatório. O exercício físico, realizado principalmente em uma intensidade moderada e feita de forma regular é capaz de proteger o sistema e exercer benefícios fisiológicos. No entanto, quando o exercício é realizado na forma intensa e em casos extremos como na maratona ou Triatlon Ironman, pode ocorrer aumentos da produção de mediadores pró-inflamatórios (células e moléculas imunes que predizem inflamação), como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa), Interleucina 1beta (IL-1beta) e proteína C reativa. Tais respostas podem ser observados na lesão muscular e endotoxemia (infecção no sangue pela presença de toxinas no sangue). No entanto, se o exercício físico for bem planejado e controlado uma atividade anti-inflamatória prevalece, sendo observados aumentos na IL-10, IL-6 e IL-1. Diversos estudos com camundongos submetidos à dieta hipercalórica ou hiperlipídica (alto teor de gordura) demonstram que o exercício físico crônico (treinamento) diminui a gordura corporal associado à diminuição de citocinas (moléculas sinalizadoras importantes para a regulação do sistema imune). Além disso, o exercício físico associado à dieta pode diminuir os macrófagos do tecido adiposo. É sabido que a ingestão excessiva de gordura ou açúcar leva ao aumento de glicose no fígado e hiperglicemia e acúmulo de gordura no fígado um processo chamado de esteatose hepática não alcoólica. O aumento da inflamação no fígado é uma das características do fígado gorduroso, e tem sido implicado no desenvolvimento do carcinoma (câncer) hepatocelular induzido pela obesidade e resistência à insulina. Novamente, diversos estudos com humanos têm demonstrado que o treinamento físico como a caminhada ativa e frequente (5 dias por semana/ de 30 a 60 minutos) ou ciclismo (3 dias por semana por 45 minutos por 4 semanas reduz a esteatohepatite. Em modelos camundongos de esteatose hepática o treinamento físico reduz a inflamação do fígado pela redução da inflamação da expressão de TNF-alfa.

EFEITO PRÓ-INFLAMATÓRIO DO EXERCÍCIO

     Já em outro cenário temos que o exercício extremamente intenso pode predispor o organismo a maiores riscos de infecções oportunistas, como o do trato respiratório superior (pneumonia, tuberculose, enfisema pulmonar). Cerca de 33% dos maratonistas que finalizaram a corrida  adquiriram infecção do trato respiratório superior nas primeiras duas semanas. Após exercício extenuante, células matadoras naturais (natural killer) aumentam repentinamente e decaem 30 minutos após o exercício, enquanto que o exercício moderado induz aumento destas células análogas à célula citotóxicas. Portanto o acompanhamento de um profissional qualificado é importante para controlar a carga de treinamento (intensidade x volume). Entender a duração ideal, o tipo de exercício físico a ser realizado e a intensidade e frequência pode influenciar o estado imune. 

REFERÊNCIAS

LANCASTER, G.I.; FEBBRAIO, M.A. The immunomodulating role of exercise in metabolic disease. Trends in Immunology, v. 35, n. 6, p. 262-269, 2014.

AHMADINEJAD, Z. et al. Common Sports related infections: a review on clinical pictures, management and time to return to sports. Asian Journal of Sports Medicine, v. 5, n. 1, p.1-9, 2014.


Algumas sugestões: 


- Alimentar adequadamente e realizar exercícios físicos regularmente pode prevenir a instalação de um processo inflamatório de baixo grau e consequentemente o aparecimento de doenças crônico-metabólicas. 

- Pessoas devem evitar treinamento intenso prolongado.

- Evitar perda de peso severa.

- Evitar exposição a pessoas com infecções.

- Evitar respirar somente pela boca na realização do exercício. Respirar pela boca pode aumentar o resfriamento e secamento da mucosa do trato respiratório. Isto leva a diminuição das células ciliares e aumento da viscosidade da mucosa, comprometendo a filtração de microorganismos do trato respiratório superior. 

- Atletas que apresentam febre e taquicardia decorrente da infecção devem permanecer em repouso completo até a recuperação.  

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