Dentre os diversos mamíferos terrestres, os humanos podem ser considerados os mais resistentes fisicamente e metabolicamente (resistência aeróbia). Este cenário pode ser constatado nas ultramaratonas e provas de longa duração, na qual a exaustão desafia os limites da fisiologia humana, ou seja, as estruturas corporais e o funcionamento orgânico. A preparação física (treinamento crônico) e nutricional são importantes para suportar todo o estresse causado pelos estímulos mecânicos (contrações musculares), acúmulo de metabólitos e depleção de substratos ao longo da prova (sessão aguda). Novas evidências científicas apontam para alternativas que podem ser complementadas às clássicas estratégias de treinamento (adaptação induzida pelo acúmulo de sessões de treinamento) e nutrição. Desta forma o objetivo deste post é explorar a biologia do desempenho aeróbio e as novas abordagens que a ciência disponibiliza atualmente para os atletas.
Durante o exercício, o aumento do estresse metabólico na forma de calor, diminuição da razão adenosina trifosfato/adenosina difosfato, depleção de glicogênio, restrição calórica, estresse oxidativo são os determinantes primários na adaptação ao treinamento. Tais estressores são fundamentais para aumentar a atividade e a quantidade do co-ativador 1 alfa do receptor ativado por proliferador do peroxissoma (PGC-1alfa). Essa proteína é responsável em induzir as seguintes adaptações importantes para o desempenho: biogênese mitocondrial (aumento do número de mitocôndrias e melhora da função), angiogênese (formação de novos vasos) e aumento da oxidação de gorduras (importante para sustentação do esforço de longa duração).
Na última década houve uma drástica mudança na concepção da ciência do treinamento físico. A disponibilidade de carboidratos ou glicogênio (níveis suficientes para manter os estoques energéticos) é importante para a sustentação durante o treinamento e competição. Isto é verdade quando se vai competir, ou seja, uma oferta adequada de carboidrato para atenuar a hipoglicemia e a diminuição dos estoques de glicogênio permite ao atleta manter o desempenho ao longo do percurso. Na privação de carboidratos e nutrientes um determinado atleta entraria em fadiga precocemente. No entanto, mudanças de paradigmas tem ocorrido, aonde vários estudos demonstram que treinar (diferente de competir) em estado depletado de glicogênio (passar a madrugada e a manhã em jejum) aumenta a oxidação de gorduras e o número de mitocôndrias, podendo ser um aliado ao programa de treinamento em longo prazo. Eis aqui algumas dicas:
- Inicie uma sessão adaptativa em déficit calórico (ex: em estado de jejum, como pela manhã, antes do café da manhã ou em estado de depleção de glicogênio). Isto faria com que a atividade da SIRT1 (gene envolvido na biogênese mitocondrial e ativado na condição de restrição calórica) tornaria elevada. É importante mencionar que toda vez que o treinamento é realizado em jejum ou no estado depletado de glicogênio, a percepção de esforço será muito maior e o desempenho irá automaticamente diminuir. Isto pode ser atenuado pelo enxague bucal de carboidratos e cafeína.
- Consuma uma bebida pré-treino contendo 200 mg de cafeína, mas livre de carboidratos e antioxidantes sintéticos. A cafeína servirá primariamente para diminuir a percepção de intensidade do treinamento, mas pode também aumentar a liberação de cálcio nos músculos exercitados permitindo maior ativação da PGC-1alfa. A ausência de antioxidantes promove maior biogênese mitocondrial por causa do aumento transcricional de PGC-1alfa2 por meio de USF-1. A ausência de carboidratos na bebida maximizaria a AMPK e atividade da p38 e epinefrina durante o treinamento. Uma vez que antioxidantes são importantes para minimizar o aumento de radicais livres e a imunossupressão, uma substituição ou alternativa seria a utilização de óleo de peixe. Antioxidantes comprometem as adaptações musculares induzidas pelo treino de endurance, enquanto que óleo de peixe parece não ter esse efeito.
- O treino adaptativo (com restrição de carboidratos) deve ser realizado em uma menor intensidade com uma maior duração. Este tipo de estratégia minimizaria a tensão mecânica e manteria a sinalização do cálcio elevada. No entanto, realizar este treinamento em jejum poderá beneficiar o atleta por causa da elevação de AMPK, SIRT1, p38 e epinefrina pela maior duração possível, induzindo teoricamente nas melhores condições de adaptações.
É importante mencionar que tal estratégia nutricional é projetada para maximizar a resposta adaptativa ao treinamento, e sem dúvida, irá diminuir o desempenho durante o treino, mas não em competição (pois na competição a nutrição será normalizada). Assim, é importante combinar este tipo de sessão adaptativa com sessões de maior qualidade, mais intensas que simulam as competições. Este tipo de treinamento é adotado por corredores leste africanos, com uma sessão matinal antes do café da manhã, e uma segunda sessão mais intensa com maior qualidade após lanche. Muito destas técnicas foram utilizadas por três canadenses que competiram na maratona das Olimpíadas de 2012 em Londres.
A estratégia nutricional apresentada aqui utiliza os dados científicos mais recentes para maximizar o estresse metabólico, que por sua vez leva ao aumento de mitocôndrias e capilarização. Por outro lado, este elevado nível de estresse pode inclusive comprometer o sistema imune, e se tal estratégia for utilizada em excesso ou sem controle pode aumentar a incidência de infecções e interromper o treinamento. Assim, este tipo de treinamento "adaptativo" deve ser visto como uma ferramenta que pode auxiliar o atleta a potencializar sua capacidade de endurance. Portanto esta mescla de novas abordagens poderá maximizar o desempenho de um atleta, durante o estado em que ele estará preparado fisicamente e nutricionalmente durante a competição.
Referência:
BAAR, K. Nutrition and Adaptation to Endurance Training. Sports Medicine, v. 44, p. 5-12, 2014.
Na última década houve uma drástica mudança na concepção da ciência do treinamento físico. A disponibilidade de carboidratos ou glicogênio (níveis suficientes para manter os estoques energéticos) é importante para a sustentação durante o treinamento e competição. Isto é verdade quando se vai competir, ou seja, uma oferta adequada de carboidrato para atenuar a hipoglicemia e a diminuição dos estoques de glicogênio permite ao atleta manter o desempenho ao longo do percurso. Na privação de carboidratos e nutrientes um determinado atleta entraria em fadiga precocemente. No entanto, mudanças de paradigmas tem ocorrido, aonde vários estudos demonstram que treinar (diferente de competir) em estado depletado de glicogênio (passar a madrugada e a manhã em jejum) aumenta a oxidação de gorduras e o número de mitocôndrias, podendo ser um aliado ao programa de treinamento em longo prazo. Eis aqui algumas dicas:
- Inicie uma sessão adaptativa em déficit calórico (ex: em estado de jejum, como pela manhã, antes do café da manhã ou em estado de depleção de glicogênio). Isto faria com que a atividade da SIRT1 (gene envolvido na biogênese mitocondrial e ativado na condição de restrição calórica) tornaria elevada. É importante mencionar que toda vez que o treinamento é realizado em jejum ou no estado depletado de glicogênio, a percepção de esforço será muito maior e o desempenho irá automaticamente diminuir. Isto pode ser atenuado pelo enxague bucal de carboidratos e cafeína.
- Consuma uma bebida pré-treino contendo 200 mg de cafeína, mas livre de carboidratos e antioxidantes sintéticos. A cafeína servirá primariamente para diminuir a percepção de intensidade do treinamento, mas pode também aumentar a liberação de cálcio nos músculos exercitados permitindo maior ativação da PGC-1alfa. A ausência de antioxidantes promove maior biogênese mitocondrial por causa do aumento transcricional de PGC-1alfa2 por meio de USF-1. A ausência de carboidratos na bebida maximizaria a AMPK e atividade da p38 e epinefrina durante o treinamento. Uma vez que antioxidantes são importantes para minimizar o aumento de radicais livres e a imunossupressão, uma substituição ou alternativa seria a utilização de óleo de peixe. Antioxidantes comprometem as adaptações musculares induzidas pelo treino de endurance, enquanto que óleo de peixe parece não ter esse efeito.
- O treino adaptativo (com restrição de carboidratos) deve ser realizado em uma menor intensidade com uma maior duração. Este tipo de estratégia minimizaria a tensão mecânica e manteria a sinalização do cálcio elevada. No entanto, realizar este treinamento em jejum poderá beneficiar o atleta por causa da elevação de AMPK, SIRT1, p38 e epinefrina pela maior duração possível, induzindo teoricamente nas melhores condições de adaptações.
É importante mencionar que tal estratégia nutricional é projetada para maximizar a resposta adaptativa ao treinamento, e sem dúvida, irá diminuir o desempenho durante o treino, mas não em competição (pois na competição a nutrição será normalizada). Assim, é importante combinar este tipo de sessão adaptativa com sessões de maior qualidade, mais intensas que simulam as competições. Este tipo de treinamento é adotado por corredores leste africanos, com uma sessão matinal antes do café da manhã, e uma segunda sessão mais intensa com maior qualidade após lanche. Muito destas técnicas foram utilizadas por três canadenses que competiram na maratona das Olimpíadas de 2012 em Londres.
A estratégia nutricional apresentada aqui utiliza os dados científicos mais recentes para maximizar o estresse metabólico, que por sua vez leva ao aumento de mitocôndrias e capilarização. Por outro lado, este elevado nível de estresse pode inclusive comprometer o sistema imune, e se tal estratégia for utilizada em excesso ou sem controle pode aumentar a incidência de infecções e interromper o treinamento. Assim, este tipo de treinamento "adaptativo" deve ser visto como uma ferramenta que pode auxiliar o atleta a potencializar sua capacidade de endurance. Portanto esta mescla de novas abordagens poderá maximizar o desempenho de um atleta, durante o estado em que ele estará preparado fisicamente e nutricionalmente durante a competição.
Referência:
BAAR, K. Nutrition and Adaptation to Endurance Training. Sports Medicine, v. 44, p. 5-12, 2014.
